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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

"Devemos conhecer os segredos da inovação"

O pesquisador americano Steven Johnson tornou-se conhecido nos EUA pelo estudo de assuntos relacionados às áreas de ciência e tecnologia.

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Graduado em literatura inglesa pela Columbia University, Johnson, 42 anos, foi descrito pela revista Newsweek como um dos pensadores mais influentes do mundo digital.

Em sua mais recente pesquisa, Johnson quis descobrir o que propicia o surgimento de ideias inovadoras. Para isso, estudou as grandes invenções da humanidade, como a luz elétrica e a teoria da evolução de Darwin.
Dessa investigação resultou o livro Where good ideas come from (De onde vêm as boas ideias), ainda não lançado no Brasil. Na obra, o pesquisador sustenta que a convivência entre pessoas de formações profissionais distintas está entre os fatores que estimulam a inovação.
“As boas ideias surgem, na maioria das vezes, de redes, sejam elas de colaboração direta ou pela nova roupagem de velhos conceitos”, diz Johnson em entrevista à DINHEIRO.

DINHEIRO - Por que o sr. decidiu estudar os princípios que estimulam a inovação?

STEVEN JOHNSON – Em primeiro lugar, pelo fato de que a inovação é um assunto importante para muitos setores da sociedade. Interessa a pessoas de negócios, do mundo criativo da tecnologia, da ciência e do setor público. Quis olhar para o passado e ver se havia padrões capazes de nos ensinar sobre os ambientes que estimularam grandes ideias inovadoras. A segunda razão é para auxiliar na tentativa de tornar os ambientes de trabalho, pesquisa e estudo mais criativos, poderosos e produtivos. É preciso conhecer os segredos que
levam à inovação.

DINHEIRO – De onde vêm as boas ideias?

JOHNSON – Elas surgem, na maioria das vezes, de redes, sejam elas de colaboração direta ou da nova roupagem de velhos conceitos. O arquétipo do gênio solitário é muito mais mito do que realidade.

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"O Google tem feito um bom trabalho para manter viva a cultura de uma empresa iniciante"
Sergey Brin (à esq.) e Larry Page, fundadores do Google

DINHEIRO – Como o sr. chegou a essa conclusão?

JOHNSON – Estudei a história de 200 das maiores e mais importantes descobertas científicas, tecnológicas e culturais da humanidade, como a teoria da evolução de Darwin, a invenção da luz elétrica e da prensa de tipos móveis, que deu origem à imprensa. A inovação surge em ambientes colaborativos e informais.

DINHEIRO – Como as ideias defendidas no seu livro podem ser aplicadas em uma empresa?

JOHNSON – Há muitas maneiras de fazer isso. A ideia central é descobrir uma forma de permitir que os funcionários tenham hobbies que sejam mantidos paralelamente às responsabilidades do trabalho oficial. Muitas inovações surgem de pessoas que trabalham por longo período motivadas por suas obsessões, até que de repente elas enxergam conexão com os negócios da companhia que as emprega.

DINHEIRO – O que mais as empresas podem fazer para criar um ambiente inovador?

JOHNSON – Um problema nas organizações é que elas separam as pessoas. Aquelas que trabalham no departamento de marketing ficam numa área, os engenheiros em outra, o pessoal do financeiro em outro lugar. No livro, digo que o pensamento realmente inovador surge quando as ideias cruzam fronteiras e se tornam multidisciplinares. Saindo de um domínio específico, elas podem ter novas aplicações, mais interessantes. As empresas precisam propiciar ambientes que se assemelham ao espaço do cafezinho, no qual conexões informais acontecem entre pessoas que lidam com diferentes problemas.

DINHEIRO – O Google tem uma cultura organizacional nos moldes apregoados pelo sr. Ainda assim, a empresa tem dificuldades para emplacar projetos que transcendam sua área principal de atuação, o serviço de buscas. Qual a explicação para isso?

JOHNSON – O Google tem feito um bom trabalho no sentido de manter viva a cultura de uma empresa iniciante. As pessoas são estimuladas a trabalhar em projetos paralelos. A companhia tenta uma série de iniciativas diferentes ao mesmo tempo e não tem medo de falhar em público. A dificuldade em transformar esses novos projetos em negócios rentáveis só mostra a complexidade de inovar e criar mercados. Com exceção do seu sistema operacional para celulares Android, que é muito bem-sucedido, o Google ainda é basicamente uma empresa de busca que ganha dinheiro com publicidade.

DINHEIRO – No livro, o sr. diz que a sorte favorece a mente conectada. O que significa na prática essa afirmação?

JOHNSON – Essa é uma brincadeira minha com o velho ditado “a sorte favorece a mente preparada”. Se estiver conectado a várias disciplinas e áreas de especialização, se você tiver uma gama diversificada de influências e pessoas, a probabilidade de deparar com uma ideia nova e interessante é bem maior. A diversidade não é apenas um slogan político – ela nos torna mais inteligentes. Há um estudo sobre inovação no trabalho que afirma que as pessoas mais criativas tendem a estar junto de indivíduos de outras profissões. Ficar apenas com gente de perfil semelhante ao seu o tornará menos original na maneira de lidar com os problemas.

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"O fundador da Apple não se destacaria numa companhia convencional"
Steve Jobs, CEO licenciado da Apple

DINHEIRO – O sr. disse em outra oportunidade que, em 1650, os cafés na Inglaterra deram origem ao Iluminismo. Qual a relação desse período com a busca de ideias inovadoras?

JOHNSON – Antes de o café e o chá se espalharem pela cultura britânica, as bebidas alcoólicas eram a única opção. Assim, a população estava bêbada na maior parte do tempo. Tudo mudou com os cafés, e não foi por acidente que uma grande onda de inovação aconteceu na Inglaterra, a partir de 1650. As pessoas trocaram um depressor, o álcool, por uma bebida estimulante. Além disso, o café permitia que pessoas de diferentes áreas de atuação se encontrassem e conversassem. A conversa informal possibilita um ambiente incrivelmente propício a novas ideias e projetos.

DINHEIRO – A competição gera a inovação?

JOHNSON – Existe esse pensamento de que a competição gera a inovação. Mas a verdade é que, quando as ideias são livres para se moverem de mente para mente, quando elas não estão presas atrás das paredes do direito de propriedade intelectual ou enterradas em um laboratório de pesquisa e desenvolvimento de uma grande empresa, são mais suscetíveis de serem partilhadas e aperfeiçoadas. Conectar ideias é mais produtivo do que protegê-las.

DINHEIRO – A sobrecarga de informações proporcionada pela internet atrapalha a inovação?

JOHNSON – Não acredito nisso. O excesso de informação cria problemas, é claro, mas devemos desenvolver habilidades para lidar com essa realidade. Ter uma grande quantidade de informação é um bom problema. A internet é a melhor coisa do mundo para quem quer inovar. Tudo depende do interesse pessoal de cada um. A vida de quem precisa pesquisar dados complexos se tornou muito mais fácil e produtiva com a web.

DINHEIRO – O sr. argumenta no livro que uma tecnologia pode contribuir para o surgimento de alguma invenção décadas mais tarde. Um exemplo é o lançamento pela URSS do Sputnik, o primeiro satélite artificial da Terra, que foi importante para a criação do sistema de GPS pelo governo dos EUA. Que lições podemos tirar desse episódio?

JOHNSON – Essa é sem dúvida uma história que contém muitos dos valores que defendo no livro. É uma maravilhosa fábula sobre a inovação. Em outubro de 1957, quando o Sputnik foi lançado, dois jovens pesquisadores americanos começaram a ouvir o sinal desse satélite. Algumas semanas depois, eles conseguiram traçar a rota e a velocidade do Sputnik ao redor da Terra. Era apenas uma experiência de dois nerds. Mas a coisa se tornou séria quando o governo americano os procurou para entender como era a experiência que eles tinham feito. O curioso é que a Marinha queria fazer exatamente o inverso do que os rapazes fizeram no experimento deles. Enquanto os garotos realizaram os cálculos a partir da Terra, a Marinha utilizava como referência um ponto no espaço – um satélite, por exemplo –, para saber onde determinados alvos, como submarinos nucleares, se localizavam na Terra. Três décadas depois desse episódio, o ex-presidente americano Ronald Reagan tornou o GPS uma plataforma tecnológica aberta para qualquer pessoa aperfeiçoar o projeto. É graças a isso que hoje podemos, por meio de um celular, localizar o café mais próximo da nossa casa ou trabalho.

DINHEIRO – O fundador da Apple, Steve Jobs, costuma ser citado como um exemplo de pessoa inovadora. O sr. concorda?

JOHNSON – Jobs é sem dúvida uma pessoa fora de série, mas a questão a ser observada é que talentos são melhorados ou diminuídos de acordo com o ambiente no qual eles estão inseridos. Jobs é um inovador, mas ele também criou ambientes de trabalho na Apple e na Pixar, a produtora de animações em computação gráfica fundada por ele, que encorajam esse tipo de comportamento. Isso é algo tão significativo quanto suas maiores criações, como o iPod, o iPhone ou o iPad. Steve Jobs não se destacaria se trabalhasse numa companhia convencional.
DINHEIRO – A busca incessante por inovação nos dias atuais o surpreende?

JOHNSON – Particularmente na internet não, porque a rede é um ambiente tão conectado e que tem tradição de permitir que ideias sejam criadas a partir de outras ideias. A web em si só foi possível porque o seu criador, Tim Berners-Lee, foi capaz de construí-la sobre uma plataforma aberta.

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